domingo, 4 de agosto de 2019

A FILHA DO REI DO PÂNTANO, Karen Dionne


A história é contada por uma mulher que foi fruto de um sequestro que durou anos... Sua mãe foi raptada na adolescência e dois anos depois ela nasceu, porém, ela não sabe disso até ter 13 anos de idade. 

Helena já é adulta, casada, com duas filhas quando conta que seu pai será solto e por isso ela precisa tomar alguma aitutde. A partir daí ela conta como foi sua infância e adolescência dentro de uma reserva florestal em que só vivia com pai e mãe. Até os 13 anos de idade ela não tinha tido nenhum contato com mais ninguém.

Percebemos as lembranças boas da infância de viver "ao ar livre", eles viviam numa barraca no meio de uma reserva florestal que não tinha água encanada nem energia elétrica. Eles cultivavam alguns vegetais, caçavam e pescavam, ela gostava dessa vida ainda mais porque admirava a independência do pai nesse meio. Ele era descendente de índios e tinha muita habilidade com a faca, o que foi ensinando gradualmente para a filha que, do seu jeito, gostava também.

Agressões físicas eram comuns na casa, tanto com a mãe como com a filha. Helena considerava a mãe uma "fraca", pois estava sempre triste e muito quieta. Não gostava quando o pai a batia mas também não era muito de defender a mãe.

Algo acontece nessa casa quando ela tem 13 anos que faz com que ela acabe descobrindo que a mãe foi raptada e finalmente o pai mostra a verdadeira face. Isso faz com que Helena queira ajudar a mãe. Não sem antes ficar bem confusa com relação à mãe querer abandonar o lar e o pai. Vamos lembrar que ela tem 13 anos, está na idade de muitos questionamentos. 

O pai finalmente é preso, mas ainda percebemos a ligação forte entre eles. É difícil pra ela lidar com esse sentimento conflitante, mas enquanto o pai está preso ela o tenta esquecer e esquece. Ela fala rapidamente como foi a volta delas para a civilização e da adaptação difícil... mas não é o foco do livro.

O que choca foi o "como". Ela se snete culpada pela prisão do pai e por mais alguma coisa e a autora soube bem como fazer suspense e como fazer a gente entender os conflitos na cabeça da personagem. É um livro que prende muito o leitor, tem suspense, drama... o livro é muito bom!!!

sábado, 3 de agosto de 2019

O peso do pássaro morto, Aline Bei

Terminei de ler agora e eu precisava compartilhar... não conseguiria esperar para gravar vídeo!!!

Dos 8 aos 52 anos acompanhamos a vida de uma mulher. E não é simples, ou é simples de maneira complexa. É muita perda na vida dela.

A forma como o livro foi escrito se mistura entre prosa, poesia, diário, poesia concreta... só isso já me encantou muito e aí juntamos a história dessa mulher... A mistura da forma com o conteúdo é muito perfeita, tem sua beleza poética mas é prosa... não consigo explicar.

Também não consigo falar desse livro sem dar alguns "spoilers", mas acredito que não faça diferença pois mesmo sabendo o conteúdo do livro, não tem como eu descrever a poesia que existe nele, não tem como eu reproduzir a forma só com descrições, você vai precisar ler.

Aos 8 a melhor amiga da personagem morre, aos 17 ela é estuprada e os pais meio que a expulsam de casa porque engravidou. Não, ela não contou que foi estuprada. Eu não sei se ela é medrosa demais ou se ela é inocente e infantil demais... Tudo é melancólico na vida dela. Talvez pela morte precoce da amiga.

Apesar dos anos que passam, conseguimos enxergar a menina a todo momento. Talvez por causa da escrita. A personagem não tem nome e isso também nos afasta dela, ela não consegue criar intimidade com ninguém, nem com o próprio filho... 

Tudo me "pegou" pessoalmente: A morte de uma criança, o distanciamento entre mãe e filho, o apego a um animal de estimação que sabemos que vai morrer antes de nós... E o nome do cão, Vento, faz todo o sentido...

Apesar dos assuntos complexos e às vezes não agradáveis, a vontade de ler é maior. O final é perfeito. Se encaixa com a personagem, com a forma como ela lidou a vida. 

Pela internet há várias entrevistas com a autora, nem dá pra imaginar que esse seja seu livro de estreia. Apesar de produzir muitos textos e contos, esse é o primeiro romance... E o melhor livro do ano (lido até agora por mim...).

terça-feira, 23 de julho de 2019

O coração é um caçador solitário, Carson Mccullers


John Singer - homem surdo (ironia no sobrenome?)
Mick Kelly - adolescente menina masculinizada
Jake Blount - marxista agitador alcoólatra
Biff Brannon - dono do bar onde todos "se reunem"
Dr. Benedict Copeland - médico negro idealista frustrado

"exemplo de obra de realismo social e psicológico retratando o sul dos Estados Unidos  nos fim dos anos 1930."

Conhecemos primeiro dois mudos numa cidade, John Singer e Spiros Antonapoulos, os dois moram juntos e são os únicos mudos ali. Em determinado momento, Antonapoulos tem de ser internado numa instituição psiquiátrica e John Singer acaba se mudando de cidade, mas visita o amigo quando pode. Singer é atencioso com o amigo, porém o outro parece não se importar. 

John Singer acaba indo morar na casa dos Kelly, uma família que aluga quartos em sua casa... A filha mais velha dos Kelly, Mick fica curiosa em ter uma pessoa muda em casa. Ela tenta ficar perto do inquilino o tempo todo. Todos os dias, Singer faz suas refeições no mesmo lugar, no bar de Biff Brannon que observa cuidadosamente a todos. Nesse mesmo bar/restaurante, há um frequentador chamado Jake Blount, que vive fazendo discursos e falando sobre como as pessoas precisam "saber". Ele nunca chega ao ponto, ele quer "abrir os olhos" dos outros mas não consegue se fazer ouvir, parece o louco da cidade. Na casa dos Kelly há a empregada Portia, cujo pai é Dr. Benedict Copeland, um médico negro que também quer "abrir os ohos da população", porém ele só pensa nos negros. Como se ele tivesse um preconceito contra brancos. O que Mick, Jake, Biff e Benedict têm em comum é que todos conversam muito com Singer.

É interessante que todos os personagens querem ser ouvidos. Estamos no fim dos anos 30, numa época não muito boa economicamente nos EUA e em cidades onde há muito preconceito contra negros também. Há vários episódios vividos pela família Copeland que retrata muito bem o que acontecia na época e é assustador. Singer acaba se tornando o "ouvinte" oficial da cidade. Ele recebe esses personagens em casa em seu quarto e os ouve. Todas as lamentações, dúvidas, sonhos... tudo é ouvido por ele... as pessoas têm necessidade de conversar com o mudo. Porém, a única pessoa que Singer se sente a vontade para conversar realmente, é seu amigo Antonapoulos, porém o amigo não dá a mínima.

Mick é fascinada por música, sonha em adquirir um piano para tocar, ela inventa músicas na cabeça, a forma de fugir da vida pobre que leva é inventando músicas, tentando construir instrumentos. Algo grave acontece com seu irmão Bubber, mas não temos muita proximidade com essse personagem para saber o que se passa em sua cabeça depois do ocorrido... Biff adora observar Jake, Singer e Mick que sempre estão em seu estabelecimento. Benedict está sempre se isolando, ele tem uma relação complicada com a filha Portia, ele queria que ela tivesse uma posição melhor, não que fosse uma "simples empregada"... Todos levam seu problema para Singer e em certo ponto, Singer fica conhecido por toda a cidade. Ele começa a andar sem destino e acaba conhecendo muitas pessoas.

Quando eu li, fiquei pensando mais na Mick, porém sabemos que o principal é o John Singer. Acredito que cada um se identifique com um dos personagens e talvez por isso este seja um livro tão marcante a ponto de ser indicado na TAG, por exemplo. Mas para mim o ritmo foi muito lento, mas lendo depois a revista da TAG até que gostei da estrutura do livro... MAS... será que um livro bom precisa ser explicado? Eu não gostei do ritmo, mas gostei da história, talvez porque eu goste da SOLIDÃO. Gosto do tema, acho que pode ser explorado de muitas formas.

O título faz referência a um poema do escritor escocês William Sharp (que utilizava na época no pseudônimo de Fiona Macleod) e um dos editores do livro que o sugeriu, pois o poema fala sobre a sensação de isolamento e a estrutura é semelhante à uma letra de música, duas coisas que estão ligadas à personagem Mick Kelly. O título original era "The mute" (O mudo) em referência ao personagem John Singer.

A autora chegou a mandar em seu argumento para a editora que se inspirou no formato de fuga (música) para escrever seu livro, principalmente na relação entre os 5 personagens. Nesse movimento da música, uma voz vai sendo seguida pela outra até que as vozes se juntam e a música segue.

No filme, há menos personagens e apesar de Singer ser também a figura principal, ele não une os outros personagens como no livro. Biff Branon praticamente não aparece no filme, a casa dos Kelly só tem um quarto para alugar, não há nenhuma tragéida envolvendo Bubber... O livro sempre será mais detalhado, porém o filme simplificou tudo demais... Acho que é até por isso que o Biff apareça tão pouco, porque não daria tempo. O filme tem pouco mais de duas horas e não conseguiu explicar metade das relações que há no livro. 

São vários personagens solitários tentando se encontrar. O final é surpreendente e faz com que imaginemos que realmente não sabemos o que se passava na cabeça de Singer. Talvez na verdade dê pra perceber, mas eu não entendo por que... Por que alguém faria uma coisa dessas???

Não é um livro que todos gostariam de ler, caso você tenha a versão da TAG, recomendo que leiam primeiro a revistinha pois nela há explicações para a leitura, pelo menos eu dei mais crédito para o livro por causa da revista... mesmo assim foi uma leitura difícil para mim. Leiam e me contem!!!

SOBRE O VEGETARIANISMO DO DR. COPELAND

Ainda não cheguei a nenhuma conclusão do porque o médico é vegetariano. Fui pesquisar sobre vegetarianismo e encontrei alguns dados que talvez possa nos guiar sobre o motivo pelo qual a autora quis nos apresentar esse detalhe...

Na Índia, a questão dessa dieta alimentar está relacionada à pureza; no Egito (3200 AC) por questões religiosas, acreditava-se que facilitava a reencarnação; na antiguidade clássica (mundo greco-romano) acreditava-se na transmigração das almas - a alma poderia ir para qualquer ser vivo, então se você comesse carne, seria como praticar o canibalismo - posteriormente veio a ideia de não fazer mal para outros animais; na idade média, padres acreditavam que evitar carne ajudava a se proteger das tentações; após a idade média foram surgindo mais teorias de não maltratar animais, a forma como estamos mais acostumados a ouvir nos dias de hoje...  entre uma variação ou outra, como por exemplo achar que a ingestão de carne vermelha nos deixava mais ferozes..

"Em 1843, Amos Bronson Alcott, um vegetariano rigoroso, pacifista e abolicionista, fundou uma comunidade vegana em Massachusetts. Muitos daqueles que lutaram pelo fim da escravidão foram defensores do vegetarianismo." Inclusive foi um dos fundadores da Sociedade Vegetariana Americana em 1850. 

Amos Bronson Alcott fundou uma escola que integrava educação e religião. O interessante é que ele incentivava a discussão entre os alunos e fazia com que eles se sentissem bem em se expressar. Ele lia uma passagem da bíblia por exemplo e depois perguntavam o que os alunos tinham achado e de acordo com o que eles respondiam ele guiava a discussão, ele não direcionava nada... não na maioria dos casos. Eu não concordo muito em escolas terem esse nível de proximidade com religião, mas concordo com esse tipo de incentivo que ele fazia. Ele guiava os alunos de forma que eles mesmos pensassem sem serem direcionados ao que o professor achava correto ou não. Isso dá importância ao que as crianças imaginam e tira esse medo de tentar falar tudo sempre "certo para os adultos"... Com isso eu concordo, com fazer as crianças pensarem.

Talvez dessa figura histórica tenha vindo a ideia de Carson de fazer Copeland se dizer vegetariano. Pois ele é um negro que queria ensinar os outros a "se defender", a PENSAREM... Posso ter ido fundo demais, mas é uma possibilidade não é mesmo? O que acaham?


(fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Hist%C3%B3ria_do_vegetarianismo)
(fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Amos_Bronson_Alcott)

domingo, 19 de maio de 2019

A retornada - Donatela Di Pietrantonio


Conhecemos a história de uma garota que aos 13 anos de idade foi devolvida para sua família biológica, mas ela não sabia que não estava lá. Quem nos conta é a própria, não sabemos seu nome, só sabemos que ela já é mais velha agora e conta como foi essa fase de sua vida, o que dá certo alívio por saber que ela está "bem" agora.

Na casa que viveu até seus 13 anos ela era como uma filha única, depois se tornou parte de uma família com uns 3 ou 4 irmãos (não lembro direito)... Ela não entende o motivo dessa mudança, sua mãe adotiva parece doente, ela não sabe se é por isso que acabou voltando pra sua família biológica que nem sabia que existia, ela não sabe como isso foi acontecer, não entende porque seu pai adotivo a trata com tanta frieza em levá-la pra casa e deixá-la sem se despedir da mãe...

Assim que ela chega a recepção é bem diferente do que imaginaríamos de uma mãe que ficou 13 anos separada da filha. Mas percebemos que é uma família bem peculiar, a mãe parece não querer se aproximar muito dos filhos, o pai é monossilábico,... somente a irmã Adriana se aproxima e surge uma verdadeira amizade.

Ela é inteligente, o que lhe confere outra mudança para uma casa que fica mais perto de uma escola melhor para estudar e sua mãe adotiva aparece com doações para que ela se acomode e tenha um estudo bom, porém ela nunca promove um encontro.

É muito difícil imaginar uma menina de 13 anos enfrentando tudo isso... a confusão na cabeça... O legal é que ela mantem uma amizade de sua "antiga vida", a mãe dessa amiga se sensibiliza com a história e também dá o maior apoio... elas ainda conversam e rolam algumas visitas.

Há uma visita porém que é muito emblemática no livro, que é quando a garota percebe como será a vida dela depois daquilo. E tudo tem um tom bem nostálgico... não sei dizer direito, sei que esse livro apesar de parecer meio parado é muito sensível...

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terça-feira, 7 de maio de 2019

SOUTHERN MOST - SILAS HOUSE


Southern Most é um livro que parece começar no meio de um furacão. Na verdade é no meio de uma tempestade, mas achei que "furacão" seria a melhor palavra para descrever para o que eu senti. 

Estamos às margens do rio Cumberland no meio de uma tempestade onde Asher, pastor da cidade, está procurando pelo seu filho Justin que foi atrás do cão Roscoe. O menino saiu correndo no meio dos ventos fortes e chuva pesada para procurar o animalzinho de estimação. Asher ouve troncos se quebrando pela turbulência da água, vacas e pequenos animais sendo levados pela correnteza e até UMA CASA sendo levada pelo rio.

A maneira como Silas House descreve essa tempestade é inacreditável, parece que estamos lá, sentindo aqueles sons todos misturados, o vento trazendo as gotas de chuva, a falta de visibilidade, o sofrimento dos animais que estão no meio da correnteza... é um início que me deixou sem fôlego!

Por algum motivo que não sei explicar, imaginei que o livro seria sobre um pastor que abriga um casal de homossexuais e que a cidade se vira contra ele, mas no caso... o pastor só convida o casal para se abrigar em sua casa depois da tempestade, mas nem chega a fazê-lo! Assim que o convite é feito, sua esposa diz imediatamente "não". É estranho imaginar como isso pode acontecer na casa de um pastor, que em teoria ajuda a comunidade... mas estamos lidando com o preconceito aqui.

Pensei que a história se passaria na cidadezinha onde todos os preconceitos seriam descritos e a briga entre pastor e comunidade chegariam às ultimas consequências, porém isso passa rapidamente e o que acompanhamos é uma viagem fascinante tanto física quanto psicológica de Asher e seu filho em busca de uma reflexão para a vida.

Asher é um pastor, casado com uma filha de pastor que no passado acabou perdendo contato ou não indo atrás de seu irmão que se assumiu homossexual. Ele tem saudade do irmão e sente que precisa reencontrá-lo para entender essa questão que apareceu em sua vida. Ele vai com o filho para Key West - onde há o Southern Most, o ponto mais sul continental dos EUA para tentar pedir perdão e se reencontrar também, ele está muito confuso com tudo isso. Como pessoas que se dizem tão boas - a comunidade toda que e é pastor - podem pedir para que ele expulse alguns só por sua opção sexual? Como ele pôde por tantos anos ter esse preconceito também? Achar que eles estão errados?

É uma aventura em tanto, o livro nos deixa sem fôlego... começa com a tempestade, depois uma briga entre congregação e pastor, o preconceito, a busca de Asher com o filho viajando pelas estradas de carro para chegar até Key West, lá conhecendo mais personagens com histórias complicadas do passado também... Ufa! É muita emoção!

É um livro que traz a tona a discussão sobre o tema GLS porém de uma forma introdutória eu diria, pois ele aborda justamente essa dúvida de aceitar ou não, de ir contra tudo o que você pensava por anos, ter uma vida dedicada a pregar uma coisa e de repente ver que estava errado, em enxergar outras opiniões... o casal homossexual vira um ponto de virada nessa história, a dúvida e a reflexão de Asher se tornam principais aqui... e a forma como o autor nos conta tudo isso é muito emocionante.

Recomendadíssimo... se quer abordar o tema de forma "leve" ou fazer alguém refletir sobre seu preconceito... talvez esse livro seja mais que recomendado... sei lá... leia...

segunda-feira, 29 de abril de 2019

ULTRA CARNEM, CESAR BRAVO


Ao pé da letra do latim "mais carne", se for pro termo inglês "ultra flash" vira algo como "carne fresca"... Não sei se o termo foi usado por se tratar muito de assuntos materiais e porque há muito desse "gore" - da descrição detalhada da carne em si, humana ou não, mas muito humana... Ou por se tratar do cobiçado tubo com tinta especial do cigano Wladimir Lester. Fato é que são 4 histórias interligadas por esse personagem que começa como menino prodígio das artes e se torna quase o próprio demônio.

Não sei porque eu pensava que se tratava de um jantar no qual se servia carne humana e era super caro... talvez por causa do garfo da capa? O autor talvez tenha algum outro livro que seja sobre esse tema?

A primeira história conta como Wladimir Lester, um menino cigano foi parar num orfanato administrado por uma igreja e a partir daí coisas estranhas começaram a acontecer. Na segunda história conhecemos Nôa, um artista plástico que está obcecado por Lester - mesmo menino foi conhecido por ser um grande artista e pela lenda de que ele teria uma tinta especial que fazia suas obras serem tão cobiçadas. A terceira história é sobre Marcos, um técnico de informática que queria melhorar de vida e acaba pedindo demais. E na quarta história conhecemos Lucrécia, uma mulher que teve uma vida bem miserável até poder escolher ir para o inferno e "melhorar de vida". Todas as histórias estão interligadas e na quarta temos o desfecho perfeito.

Gostei muito do livro, a única coisa que achei muito "batida" foi a aparência do próprio diabo, mas também não imagino como ele poderia ser representado de forma diferente. O livro contém muita descrição de sangue e torturas... diálogos secos e sinceros... está tudo na medida certa.

A terceira história é a que mais gosto por envolver muito sangue e a questão do desejo. Você realmente saberia o que desejar caso tivesse a oportunidade? Um episódio de "arquivo-X" me veio logo à cabeça... nele, o detetive pede "paz mundial" quando um gênio lhe concede um desejo e no minuto seguinte ele está totalmente sozinho no mundo inteiro. É a paz mundia, só que não do jeito que ele imaginou... ou poderia ter sido até como ele tinha imaginado, só que não ficando sozinho num mundo abandonado com carros ocupando as ruas, prédios vazios como se todos tivesse fugido às pressas, mundo poluído...

Enfim, a quarta história foi muito bem costurada e é muito interessante pois fazemos uma visita ao inferno com tudo o que o mundo moderno implica, inclusive uma seção para informática! Essa visão de como o inferno funciona, como são executadas as punições é muuuuito legal! Eu recomendo muito o livro, só não fique impressionado demais com os xingamentos, o sangue, torturas, etc...

sexta-feira, 26 de abril de 2019

PRIMAL - ROBIN BAKER

"Sem roupas. Sem abrigo. Sem esperança de resgate. Apenas o brutal instinto de sobrevivência."

Nove alunos saem para uma expedição liderada por Raul López-Turner que é um professor/explorador bem sucedido/especialista em macacos, porém após as quatro semanas previstas, os alunos não retornam. 

Quem conta a história é um professor amigo de Raul, os alunos já haviam sido declarados mortos quando dois deles foram encontrados à deriva e inconscientes. A partir daí o que se segue é a história de como esse amigo de Raul, Robin, foi juntando as informações até chegar na verdade ou nos fatos que ocorreram na ilha. 

Um grupo é resgatado depois que Danny, um dos sobreviventes leva equipes de resgate para a ilha que não fora encontrada na época das buscas pois era totalmente oposta à que eles tinham ido - o mapa que continha informações sobre o paradeiro dos pesquisadores não estava legível. O grupo de sobreviventes se uniu para proteger informações sobre a ilha e procuraram Robin para que ele pudesse escrever um livro sobre o acontecido, porém somente Ysan conversaria com ele e ele teria de escrever somente o que ela dissesse.

Tudo era muito misterioso e depois de saber da morte de seu amigo (Raul), Robin queria descobrir a verdade, assim como toda a imprensa. Como eles sobreviveram tanto tempo? Como os outros morreram? (Além de Raul, dois alunos morreram também: Maisie e Dingo) Por que os sobreviventes estavam nus quando foram encontrados? Mulheres voltaram grávidas, casais se formaram? 

O que posso dizer sobre tudo isso é que o livro é muito bom. A narração é em primeira pessoa, o que facilita bastante a leitura além de ter esse ar misterioso, do que pode ter acontecido e a forma como o autor vai descobrindo aos poucos e nos guiando por depoimentos e DESENHOS. Clarabel, uma das sobreviventes desenha muito bem e foi registrando o que acontecia na ilha, aos poucos os desenhos chegaram nas mãos de Robin para que ele os analisasse e encontrasse algumas repostas.

Para quem gosta de referências... ele é misterioso como "O quarto dia" da Sarah Lotz com relação ao paradeiro das pessoas, porém... no livro de Baker nós conseguimos ter mais informações sobre o que aconteceu e sobre onde todos ficaram no tempo do desaparecimento. Sabendo disso temos uma comparação inevitável com "Senhor das Moscas" de Golding, pessoas (no primeiro caso crianças e adolescentes e no segundo jovens) numa ilha isolada sozinhas sem seu "chefe", em ambos os casos o professor que liderava a expedição foi morto. Contextos diferentes, mas os dois mostram a "essência" humana.

Claro que há opinião de todos os tipos, mas a minha opinião também é a de que nós, humanos, sem direção, sem orientação nos tornamos irracionais, sobrevivendo somente pelo instinto a moral muda também. Tudo é questão de sobrevivência, do mais forte vencer. Nesse caso específico ainda, estamos falando de selva, de caçar sua comida, de ser útil ao grupo, de inclusive saciar seus desejos. Sim, sexo.

Li algumas resenhas falando que "a ideia do livro é boa, mas tem muito sexo" (resumindo muito o que li). Sim, tem muito sexo e se você tem problema em ler sobre estupro, sexo grupal consensual ou não, aborto voluntário ou não e até homossexualismo, não leia ou leia... você é quem escolhe.

Me lembrou muito um filme que assisti há muito tempo mas não vou lembrar o nome (se lembrar coloco aqui) em que 3 pessoas ficam num bunker após um tipo de bomba destruir a atmosfera do planeta. Elas não sabem quanto tempo terão de morar lá. São apenas 3 pessoas, não são cientistas, nem médicos nem pesquisadores, somente 3 pessoas "comuns". Um casal e um homem violento, todos viciados em drogas. Eles têm um bom estoque de comida que é racionado pelo violento e drogas também. Em algum momento do filme, o homem oferece sua namorada como pagamento para drogas e comida ao homem violento. Ele aceita, a mulher acaba sendo assassinada (após ser estuprada pelos dois), os homens quase incendeiam o bunker morrendo queimados vivos... caos total.

Primal é bruto, nos leva à observação de nós mesmos, de como é inegável nosso instinto de sobrevivência e de como podemos ficar irreconhecíveis em estados de pressão ou de isolamento. A que ponto podemos chegar? Será que revelamos nosso verdadeiro eu quando nosso instinto de sobrevivência é instigado até o último limite?

Recomendo para estômagos fortes.

No youtube: https://youtu.be/6ZAx2cgJhXk

Título: Primal
Autor: Robin Baker
Editora: record
Ano: 2012
Edição: 1

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