terça-feira, 23 de julho de 2019

O coração é um caçador solitário, Carson Mccullers


John Singer - homem surdo (ironia no sobrenome?)
Mick Kelly - adolescente menina masculinizada
Jake Blount - marxista agitador alcoólatra
Biff Brannon - dono do bar onde todos "se reunem"
Dr. Benedict Copeland - médico negro idealista frustrado

"exemplo de obra de realismo social e psicológico retratando o sul dos Estados Unidos  nos fim dos anos 1930."

Conhecemos primeiro dois mudos numa cidade, John Singer e Spiros Antonapoulos, os dois moram juntos e são os únicos mudos ali. Em determinado momento, Antonapoulos tem de ser internado numa instituição psiquiátrica e John Singer acaba se mudando de cidade, mas visita o amigo quando pode. Singer é atencioso com o amigo, porém o outro parece não se importar. 

John Singer acaba indo morar na casa dos Kelly, uma família que aluga quartos em sua casa... A filha mais velha dos Kelly, Mick fica curiosa em ter uma pessoa muda em casa. Ela tenta ficar perto do inquilino o tempo todo. Todos os dias, Singer faz suas refeições no mesmo lugar, no bar de Biff Brannon que observa cuidadosamente a todos. Nesse mesmo bar/restaurante, há um frequentador chamado Jake Blount, que vive fazendo discursos e falando sobre como as pessoas precisam "saber". Ele nunca chega ao ponto, ele quer "abrir os olhos" dos outros mas não consegue se fazer ouvir, parece o louco da cidade. Na casa dos Kelly há a empregada Portia, cujo pai é Dr. Benedict Copeland, um médico negro que também quer "abrir os ohos da população", porém ele só pensa nos negros. Como se ele tivesse um preconceito contra brancos. O que Mick, Jake, Biff e Benedict têm em comum é que todos conversam muito com Singer.

É interessante que todos os personagens querem ser ouvidos. Estamos no fim dos anos 30, numa época não muito boa economicamente nos EUA e em cidades onde há muito preconceito contra negros também. Há vários episódios vividos pela família Copeland que retrata muito bem o que acontecia na época e é assustador. Singer acaba se tornando o "ouvinte" oficial da cidade. Ele recebe esses personagens em casa em seu quarto e os ouve. Todas as lamentações, dúvidas, sonhos... tudo é ouvido por ele... as pessoas têm necessidade de conversar com o mudo. Porém, a única pessoa que Singer se sente a vontade para conversar realmente, é seu amigo Antonapoulos, porém o amigo não dá a mínima.

Mick é fascinada por música, sonha em adquirir um piano para tocar, ela inventa músicas na cabeça, a forma de fugir da vida pobre que leva é inventando músicas, tentando construir instrumentos. Algo grave acontece com seu irmão Bubber, mas não temos muita proximidade com essse personagem para saber o que se passa em sua cabeça depois do ocorrido... Biff adora observar Jake, Singer e Mick que sempre estão em seu estabelecimento. Benedict está sempre se isolando, ele tem uma relação complicada com a filha Portia, ele queria que ela tivesse uma posição melhor, não que fosse uma "simples empregada"... Todos levam seu problema para Singer e em certo ponto, Singer fica conhecido por toda a cidade. Ele começa a andar sem destino e acaba conhecendo muitas pessoas.

Quando eu li, fiquei pensando mais na Mick, porém sabemos que o principal é o John Singer. Acredito que cada um se identifique com um dos personagens e talvez por isso este seja um livro tão marcante a ponto de ser indicado na TAG, por exemplo. Mas para mim o ritmo foi muito lento, mas lendo depois a revista da TAG até que gostei da estrutura do livro... MAS... será que um livro bom precisa ser explicado? Eu não gostei do ritmo, mas gostei da história, talvez porque eu goste da SOLIDÃO. Gosto do tema, acho que pode ser explorado de muitas formas.

O título faz referência a um poema do escritor escocês William Sharp (que utilizava na época no pseudônimo de Fiona Macleod) e um dos editores do livro que o sugeriu, pois o poema fala sobre a sensação de isolamento e a estrutura é semelhante à uma letra de música, duas coisas que estão ligadas à personagem Mick Kelly. O título original era "The mute" (O mudo) em referência ao personagem John Singer.

A autora chegou a mandar em seu argumento para a editora que se inspirou no formato de fuga (música) para escrever seu livro, principalmente na relação entre os 5 personagens. Nesse movimento da música, uma voz vai sendo seguida pela outra até que as vozes se juntam e a música segue.

No filme, há menos personagens e apesar de Singer ser também a figura principal, ele não une os outros personagens como no livro. Biff Branon praticamente não aparece no filme, a casa dos Kelly só tem um quarto para alugar, não há nenhuma tragéida envolvendo Bubber... O livro sempre será mais detalhado, porém o filme simplificou tudo demais... Acho que é até por isso que o Biff apareça tão pouco, porque não daria tempo. O filme tem pouco mais de duas horas e não conseguiu explicar metade das relações que há no livro. 

São vários personagens solitários tentando se encontrar. O final é surpreendente e faz com que imaginemos que realmente não sabemos o que se passava na cabeça de Singer. Talvez na verdade dê pra perceber, mas eu não entendo por que... Por que alguém faria uma coisa dessas???

Não é um livro que todos gostariam de ler, caso você tenha a versão da TAG, recomendo que leiam primeiro a revistinha pois nela há explicações para a leitura, pelo menos eu dei mais crédito para o livro por causa da revista... mesmo assim foi uma leitura difícil para mim. Leiam e me contem!!!

SOBRE O VEGETARIANISMO DO DR. COPELAND

Ainda não cheguei a nenhuma conclusão do porque o médico é vegetariano. Fui pesquisar sobre vegetarianismo e encontrei alguns dados que talvez possa nos guiar sobre o motivo pelo qual a autora quis nos apresentar esse detalhe...

Na Índia, a questão dessa dieta alimentar está relacionada à pureza; no Egito (3200 AC) por questões religiosas, acreditava-se que facilitava a reencarnação; na antiguidade clássica (mundo greco-romano) acreditava-se na transmigração das almas - a alma poderia ir para qualquer ser vivo, então se você comesse carne, seria como praticar o canibalismo - posteriormente veio a ideia de não fazer mal para outros animais; na idade média, padres acreditavam que evitar carne ajudava a se proteger das tentações; após a idade média foram surgindo mais teorias de não maltratar animais, a forma como estamos mais acostumados a ouvir nos dias de hoje...  entre uma variação ou outra, como por exemplo achar que a ingestão de carne vermelha nos deixava mais ferozes..

"Em 1843, Amos Bronson Alcott, um vegetariano rigoroso, pacifista e abolicionista, fundou uma comunidade vegana em Massachusetts. Muitos daqueles que lutaram pelo fim da escravidão foram defensores do vegetarianismo." Inclusive foi um dos fundadores da Sociedade Vegetariana Americana em 1850. 

Amos Bronson Alcott fundou uma escola que integrava educação e religião. O interessante é que ele incentivava a discussão entre os alunos e fazia com que eles se sentissem bem em se expressar. Ele lia uma passagem da bíblia por exemplo e depois perguntavam o que os alunos tinham achado e de acordo com o que eles respondiam ele guiava a discussão, ele não direcionava nada... não na maioria dos casos. Eu não concordo muito em escolas terem esse nível de proximidade com religião, mas concordo com esse tipo de incentivo que ele fazia. Ele guiava os alunos de forma que eles mesmos pensassem sem serem direcionados ao que o professor achava correto ou não. Isso dá importância ao que as crianças imaginam e tira esse medo de tentar falar tudo sempre "certo para os adultos"... Com isso eu concordo, com fazer as crianças pensarem.

Talvez dessa figura histórica tenha vindo a ideia de Carson de fazer Copeland se dizer vegetariano. Pois ele é um negro que queria ensinar os outros a "se defender", a PENSAREM... Posso ter ido fundo demais, mas é uma possibilidade não é mesmo? O que acaham?


(fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Hist%C3%B3ria_do_vegetarianismo)
(fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Amos_Bronson_Alcott)